Depoimento de Soraya Smaili, reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e voluntária no estudo da vacina de Oxford

Começamos 2021 falando em vacinação. A imunização, que já é realidade em diversos, só pode ser iniciada a partir do registro emergencial, usando algumas das mais de 200 vacinas candidatas em estudo no mundo. Dessas, menos de 10 estão em estágios avançados da pesquisa clínica de fase III. A ciência brasileira não ficou para trás e teve um papel importante para a vinda de estudos para o nosso país, devido à sua forte inserção internacional, além da capacidade instalada em décadas de trabalho de cientistas e de investimento público.

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) passou a integrar o projeto de pesquisa da chamada vacina da Universidade de Oxford com o Laboratório AstraZeneca. Nossa universidade desempenhou um papel importante nos resultados do estudo global, recentemente publicados na revista Lancet, e salienta o relevante papel de universidades que fazem pesquisa e produzem ciências. Não é de hoje que a Unifesp, por meio do CRIE (Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais), sob a coordenação experiente da Dra Lily Weckx, participa do desenvolvimento de vacinas, bem como de estudos de fase III.

No caso das vacinas para a Covid, devido à situação de emergência, tornou-se comum a divulgação de informações a partir de muitas fontes. Porém, a ciência trabalha com análise de pares, com análises independentes e com total transparência. Hoje, sabemos que a vacina de Oxford, pelos dados apresentados e publicados para todo o mundo, possui cerca de 70% de eficácia. Também sabemos que nenhum voluntário teve reações adversas, bem como a vacina protegeu contra casos graves da doença, além de ser muito efetiva em idosos, onde a maior parte das vacinas muitas vezes falha. Além disso, no Brasil, nenhum voluntário que participou do estudo e tomou a vacina adoeceu, o que comprova o seu alto grau de proteção, principalmente em casos graves da doença.

Porém, essas informações foram obtidas no decorrer do estudo. No início dos testes aqui no Brasil, sabíamos apenas que a então candidata a vacina tinha uma boa segurança, devido aos resultados obtidos na Universidade de Oxford em estudos pré-clínicos de laboratório e nas primeiras fases em humanos. Quando o processo de recrutamento em nosso país deu início, houve uma série de informações, debates e entrevistas, e em uma dessas ocasiões perguntaram “se essa vacina é tão segura, por que vocês não testam em vocês mesmos?”.

De fato, uma ótima pergunta e que foi respondida com uma providência particular: me candidatei para servir como voluntária do estudo, o que foi possível, já que não haveria conflito por não estar envolvida diretamente na pesquisa. Grande parte dos voluntários de fato foram profissionais de saúde e pesquisadores de nossa instituição, e graças a todos que se voluntariaram, a ciência avançou. Neste domingo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial dessa vacina.

Não é a primeira vez que sou voluntária em uma pesquisa clínica. Como cientista, entendo a importância de contribuir para o conhecimento, especialmente se houver rigor e método científico. Mas, desta vez, foi especial, pois significou também o exemplo em um momento em que há tanta desconfiança e tantas notícias falsas. Temos que demonstrar a confiança na ciência e nos cientistas.

Embora não saiba ainda se fui vacinada para a Covid-19 ou se participei do grupo controle, pois o estudo é cego e, para manter a isenção, é assim que deve ser, fico feliz em ter dado a minha parcela de contribuição. Felizmente, teremos mais vacinas e o trabalho deve seguir para que elas possam chegar para o maior número de pessoas e pelo SUS, tão breve quanto possível. E para aqueles que perguntarem, responderei com clareza: Tenho medo da Covid-19, não da vacina. A ciência está produzindo respostas e nós poderemos celebrar a vida.

Soraya Smaili

Uma universidade que atua em todas as áreas do conhecimento, realizando com excelência atividades de ensino, pesquisa e extensão • http://www.unifesp.br/

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