Carsten Egevang, Greenland Institute of Natural Resources

Qual a função do chifre do unicórnio dos mares?

Alexandre Varaschin Palaoro, professor visitante do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas (ICAQF/Unifesp) — Campus Diadema

O unicórnio existe, apesar de não ser como a maioria das pessoas imagina. O animal sobre o qual estamos falando é o narval, uma espécie de baleia (Monodon monoceros) que possui um chifre na cabeça que pode chegar até três metros de comprimento nos machos. Em razão disso, podemos chamá-lo de unicórnio dos mares.

Porém, o chifre não é um chifre. Parece estranho, eu sei, mas o que chamamos de chifre é, na verdade, um dente (um canino) que cresce de forma exagerada. Esse dente atravessa a pele e fica exposto à natureza, podendo ser usado em diversas funções. O grande problema é saber quais são essas funções. O unicórnio é um animal que não gosta de aparecer para as câmeras, passando boa parte da sua vida embaixo do gelo do Ártico. Portanto, não sabemos para o que essa estrutura serve.

Muitos pesquisadores discutem se ela é usada para caçar, para sentir o ambiente ou até para brigar. O problema é que quase não temos observações desses animais na natureza. Para solucionar essa questão, eu e meus colaboradores usamos um conjunto de mais de 30 anos de coletas dessa espécie. Nesse banco de dados, nós tínhamos informações sobre o tamanho do animal, o tamanho do chifre e o sexo. Como machos são os principais portadores dos dentes, imaginamos que o dente tenha uma função sexual.

Estudos em outros animais mostram que, se estruturas morfológicas possuem funções sexuais, a correlação entre o tamanho da estrutura e o tamanho do corpo será forte — mais até do que isso, a estrutura também será bem variável entre os machos. Com nosso conjunto de dados em mãos, testamos essa correlação entre o tamanho do dente e o tamanho do corpo. Para nossa surpresa, a correlação era muito forte: unicórnios grandes possuem dentes muito maiores do que é esperado em uma correlação fraca. Além disso, a variação do dente também foi mais alta do que a identificável em outras características desse animal, como a cauda, por exemplo.

Com base nessas evidências, nós demonstramos que o chifre do unicórnio é usado durante a reprodução. Você pode estar se perguntando: em qual parte desse período? Provavelmente, durante confrontos entre os machos ou para a seleção das fêmeas. Por um lado, os machos podem sinalizar para seus competidores “eu sou maior do que você”. Por outro lado, as fêmeas podem preferir machos com chifres maiores.

Distinguir entre essas funções, sem filmagens dos animais, é difícil. Porém, informações sobre cicatrizes na cabeça dos machos grandes e o comportamento de tusking, quando os animais sobem até a superfície para encostar os dentes, sugerem que ele é usado durante brigas. Por isso, com esse trabalho publicado na Biology Letters, uma revista científica da Royal Society, fornecemos as evidências mais fortes, até o momento, de que o unicórnio dos mares usa seu chifre para se reproduzir — e muito provavelmente para espantar competidores.

Uma universidade que atua em todas as áreas do conhecimento, realizando com excelência atividades de ensino, pesquisa e extensão • http://www.unifesp.br/

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