O impacto do distanciamento social nos ritmos biológicos e na saúde mental

Um estudo da efetividade de intervenções em ritmos biológicos e sono

Equipe do Laboratório de Neurobiologia da Pineal da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Os ritmos biológicos são eventos biológicos que ocorrem repetidamente, de maneira periódica, a fim preparar o organismo às alterações previsíveis do ambiente, como o dia, a noite e as estações do ano. Todos os seres vivos e seus sistemas fisiológicos apresentam ritmicidade, principalmente circadiana, que ocorre aproximadamente em torno de 24 horas. Como exemplo, temos o ciclo de sono-vigília, sendo que, nos humanos, ocorre um grande surto de sono à noite, a cada aproximadamente 24 horas. Vale destacar que a harmonização entre os ritmos biológicos do organismo e as alterações cíclicas ambientais é essencial para a manutenção da saúde.

Na atual pandemia de covid-19, uma série de medidas preventivas e protetivas passaram a ser altamente recomendadas e adotadas em vários países, a fim de diminuir a disseminação viral e evitar a sobrecarga do sistema de saúde. Dentre essas, o distanciamento físico é uma estratégia que visa aumentar o espaço entre as pessoas através de medidas como trabalhar e estudar em casa e evitar contato físico e aglomerações. Por ficarmos mais tempos restritos às nossas casas, o distanciamento e o isolamento social têm o potencial de reduzir a exposição à luz natural, tornando irregulares os horários de alimentação, sono, prática de atividades físicas e rotinas em geral e gerar, com isso, a desorganização da nossa ritmicidade biológica.

Vários estudos em seres humanos e modelos animais apontam para a associação entre alterações da organização biológica circadiana e transtornos e alterações do humor. A irregularidade e alteração do ritmo de sono-vigília estão relacionados a pior humor, ansiedade e sintomas de estresse em indivíduos em distanciamento físico e social. Além disso, observações recentes sobre os impactos da quarentena (fora de ambiente hospitalar) indicam efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. Outros fatores estressores incluem confinamento por longos períodos, medo de infecção, frustração, tédio, informação inadequada ou até mesmo excesso de notícias negativas e instabilidade e/ou prejuízo financeiro.

Dessa forma, estratégias para manutenção da organização dos ritmos circadianos podem ter um importante papel protetivo sobre a saúde mental durante o distanciamento social. Nesse contexto, o estudo O impacto do distanciamento social nos ritmos biológicos e na saúde mental: um estudo da efetividade de intervenções em ritmos biológicos e sono, elaborado pelo Laboratório de Cronobiologia e Sono (Universidade Federal do rio Grande do Sul — UFRGS) e pelo Laboratório de Neurobiologia da Pineal (Universidade Federal de São Paulo — Unifesp), vem sendo desenvolvido nas cidades de São Paulo e Porto Alegre. A pesquisa tem como objetivo estudar efeitos do distanciamento social sobre desfechos de humor, como ansiedade e estresse, e na ritmicidade circadiana, além de avaliar a efetividade de recomendações e dicas na prevenção desses sintomas.

Para isso, na primeira fase do estudo foram recrutados voluntários de ambos os sexos, maiores de idade e que estavam permanecendo em casa. Os voluntários foram convidados a usar um actígrafo, aparelho usado para avaliar o padrão de atividade e repouso, exposição a luminosidade e temperatura de pulso do indivíduo. Os voluntários responderam diários on-line sobre como se sentiam e suas rotinas durante o período do distanciamento social. Na metade do período do estudo, foram enviadas recomendações de como se manter saudável durante o distanciamento social e os(as) voluntários(as) poderiam avaliar tais recomendações, quais aderiram ou não, nos próximos diários. As recomendações são embasadas em evidências da literatura e material de órgãos/associações oficiais a respeito de medidas protetivas, dicas de hábitos saudáveis e como manter a organização rítmica e a qualidade do sono. As análises dos dados da primeira coleta, assim como o desenvolvimento de um aplicativo para ampliar a disponibilidade das recomendações, estão em andamento.

Estudos nesse sentido são essenciais para que decisões eficientes nesta ou em ocasiões de futuras epidemias ou pandemias sejam tomadas com base em evidências científicas. Para reduzir o impacto do distanciamento social na saúde da população, é preciso desenvolver estratégias de preservação da saúde física e mental. A busca por medidas capazes de tornar a experiência do distanciamento social o mais tolerável possível parecem ser fundamentais para o bem-estar da população.

Interessados(as) em participar devem acessar o link (clique aqui)

Uma universidade que atua em todas as áreas do conhecimento, realizando com excelência atividades de ensino, pesquisa e extensão • http://www.unifesp.br/

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